Partilha de leite materno na era das redes sociais

Partilha de leite materno na era das redes sociais

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MICHELLE ANGELETTI, MSW, PH.D. PROFESSIONAL LIAISON RESEARCH ASSOCIATE FOR THE LLL ALLIANCE FOR BREASTFEEDING EDUCATION AREA NETWORK

MARY FRANCELL, AREA PROFESSIONAL LIAISON FOR LLL OF GEORGIA, USA.

Nos últimos anos, tem havido uma proliferação de redes sociais e sites da Internet nos quais mães que amamentam podem, informalmente, partilhar leite materno. Actualmente, as mães tendem a ser utilizadoras experientes da Internet e, mesmo que não estejam envolvidas em actividades de partilha de leite, a maioria está provavelmente ciente da sua existência. Podem também estar cientes de que a Organização Mundial da Saúde[i] se refere ao “leite materno de uma ama-de-leite saudável” como uma alternativa ao leite da própria mãe. Como Monitora, pode já ter sido abordada por uma mãe de um Grupo à procura de informações sobre como se pode envolver na partilha informal de leite materno – seja para doar, seja para receber leite. Talvez se questione se é sequer apropriado discutir a partilha informal de leite com as mães. Neste artigo, Michelle e Mary discutem o papel da Monitora da LLL e as normas revistas da Liga La Leche Internacional sobre este assunto, sob a perspectiva da LLL-EUA.

Em Março de 2015, o Conselho de Administração da LLLI fez a revisão das normas da LLLI relativas à partilha de leite materno. As normas para a doação de leite materno (The Milk Donation policy) afirmam:

Quando uma mãe contacta uma Monitora com o objectivo de adquirir leite doado ou de discutir opções pessoais, o papel da Monitora é o de responder com informação e apoio sobre os riscos e benefícios de práticas como a lactação induzida, relactação, ama-de-leite ou aleitamento cruzado.

Quando uma mãe que amamenta pede informações sobre partilha de leite materno, pode fazê-lo porque tem uma grande produção de leite que gostaria de partilhar, ou porque procura leite materno de outras mães. No último caso, a monitora pode tentar explorar se a mãe não poderá dar o seu próprio leite ao filho, fornecendo informação sobre como aumentar a produção de leite ou sobre a relactação. Como em qualquer outra situação, o nosso objectivo como Monitoras é o de ajudar a mãe a encontrar a melhor solução para a sua família, com base nas opções que lhe estão disponíveis.

AUMENTAR A PRODUÇÃO DE LEITE MATERNO

A mãe pode não estar ciente de que medidas simples, como aumentar a frequência com que amamenta, melhorar a pega do bebé ou experimentar massajar a mama, podem muitas vezes ajudar a aumentar a produção de leite. Uma Monitora pode também explicar à mãe que dar ao seu filho leite doado, pode interferir com a natural função de oferta e procura que regula a sua produção de leite. Tal como acontece com o leite artificial, oferecer leite doado ao bebé pode ter como consequência indesejada a diminuição da produção de leite por parte da própria mãe.

As normas também afirmam que uma Monitora pode providenciar informação sobre lactação induzida, que é a produção de leite por uma mulher que nunca esteve grávida, ou sobre relactação, que se define como o aumento de produção de leite numa mulher que já esteve grávida. Informação sobre estes assuntos está disponível no livro “The Womanly Art of Breastfeeding”, 2010, páginas 354–362. Se uma Monitora sentir que estes assuntos vão além das suas competências, o seu próximo passo deve ser contactar o Professional Liaison (PL) Department[ii] junto do qual deve procurar apoio, ou encaminhar a mãe a um consultor em lactação.

OPÇÕES DE PARTILHA

As normas afirmam ainda:

Se uma mãe está interessada em doar o seu leite, ou em receber leite doado, a Monitora deve incentivar a mãe a fazer uma pesquisa sobre as várias opções existentes para doar e adquirir leite humano. A mãe deve ser encorajada a tomar a decisão informada que melhor se adeque a si e ao seu bebé e que corresponda às expectativas culturais. Uma Monitora pode fornecer os contactos de bancos de leite materno sem fins lucrativos, de outros centros de recolha de leite regulamentados, e de redes de partilha de leite formal/medicamente supervisionadas ou de redes informais. Os protocolos para a recolha e manipulação cuidadosa e segura do leite materno são da responsabilidade dos bancos de leite e das redes de partilha, e a Monitora deve incentivar a mãe a analisar esses protocolos. Não é responsabilidade das Monitoras da LLL ou da LLLI licenciar, recomendar ou avaliar bancos ou redes de leite materno, mas sim partilhar informação com as mães.

As Monitoras da LLL podem ajudar os pais a tomarem conhecimento das inúmeras opções que existem no que diz respeito à partilha informal de leite materno. Algumas mães (ou pais adoptivos) encontram uma solução através de um ou mais dadores que conhecem pessoalmente. Outros recorrem a sites de partilha informal de leite, como o  Human Milk 4 Human Babies ou o Eats on Feets. Alguns pais fazem em sua casa a esterilização flash (flash-heat) do leite doado, outros utilizam o leite cru. É importante informar os pais das várias possibilidades existentes e encorajá-los a estudar exaustivamente cada uma dessas opções, antes de tomarem uma decisão. Entre outras questões, os pais devem estar cientes da possibilidade do leite comprado através de uma fonte não regulamentada (em vez de doado) poder conter outros ingredientes para além de leite humano.

Se uma mãe estiver interessada em doar leite, a Monitora pode salientar que, para além dos vários fóruns para partilha informal de leite, muitos países têm bancos de leite devidamente regulamentados (nos quais a maioria do leite humano é oferecido a bebés prematuros ou doentes). Alguns países organizam os seus bancos de leite humano em associações de bancos de leite como, por exemplo, a Human Milk Banking Association of North America (HMBANA) ou a European Milk Banking Association (EMBA). Em países como o Brasil, França e Alemanha os bancos de leite humano têm sido incorporados nas políticas de saúde pública.

QUESTÕES A COLOCAR

Pode ser útil fornecer aos pais uma série de questões que os ajude a avaliar um acordo informal de partilha de leite, especialmente se a mãe estiver a considerar obter o leite através de anúncios classificados ou de outras fontes de doação anónimas.

Como é que o leite vai ser recolhido e armazenado, que recipientes vão ser utilizados, e estes recipientes vão ser datados de forma a  podermos determinar a data de recolha do leite? Que práticas de higiene vão ser aplicadas na expressão, armazenamento e manipulação em geral do leite? Tratando-se de um bebé prematuro ou doente, estarão os pais cientes de que o seu seguro pode cobrir o fornecimento de leite humano doado, proveniente de um banco de leite regulamentado? Vão receber o leite fresco ou congelado? E como vai ser transportado ou enviado? A dadora é fumadora, consome bebidas alcoólicas, é consumidora de drogas recreativas, produtos de venda livre ou está a tomar algum medicamento prescrito?

A dieta da dadora inclui potenciais alergénios? A dadora fez recentemente testes sanguíneos para o despiste de HIV, HTLV, Hepatite B e C, CMV e doenças sexualmente transmissíveis? Poderá a dadora fornecer documentação sobre esses testes e uma carta do seu médico que ateste o seu estado geral de saúde (incluindo, eventualmente, a sua história clínica) e a sua capacidade de doar leite enquanto amamenta o seu próprio bebé? A dadora foi diagnosticada com qualquer outra doença ou fez alguma tatuagem ou piercing nos últimos 12 meses?

TRIAGEM DE DADORAS

A lista de questões a colocar (em cima) não cobre todas as eventualidades. Para uma lista exaustiva de questões de triagem, os pais devem contactar um banco de leite humano ou um centro de rastreios sanguíneos. Alguns sites online de partilha de leite podem também disponibilizar ferramentas para a triagem de dadoras. O site informal Milk Share disponibiliza, para a triagem, um formulário modelo de história clínica de dadoras. No Reino Unido, as orientações NICE[iii] podem ser encontradas em Donor breast milk banks: the operation of donor milk bank services. Nos Estados Unidos, a Monitora pode informar que a US Food and Drug Administration (FDA) desaconselha a partilha informal de leite devido ao perigo deste não ser adequadamente rastreado para doenças infecciosas, ou ao perigo de contaminação. O Use of Donor Milk da FDA, está disponível online. As Monitoras podem partilhar as recomendações oficiais do seu país e discutir a importância da triagem das dadoras, incluindo familiares e amigas, que podem não estar cientes, ou ter vergonha de revelar informação clínica pessoal que pode afectar a segurança do seu leite para outro bebé. Agentes infecciosos, como bactérias e vírus, podem ser encontrados no leite de mulheres aparentemente saudáveis e assintomáticas[iv]. Nem todos os países têm recomendações oficiais. Nesse caso, a Monitora pode contactar o PL Department da sua área.

MEDICAMENTOS NO LEITE MATERNO

Um importante risco envolvido na utilização de leite doado é o da possível passagem de medicamentos para o leite. As Monitoras devem encorajar as mães a consultar o médico do seu filho, de forma a obter informação sobre a segurança de determinado medicamento para o seu bebé. Em Breastfeeding and Medications, estão disponíveis uma série de livros, sites fidedignos e linhas de apoio internacionais, onde pode verificar a compatibilidade de determinados medicamentos durante a amamentação.

QUESTÕES LEGAIS

As normas da LLLI dizem ainda:

É sempre importante que a Monitora encoraje a mãe a falar sobre o seu caso particular com o seu próprio profissional de saúde e com o do seu bebé.

Se a Monitora tiver conhecimento de que a mãe tenciona participar nalgum acordo informal de partilha de leite, aleitamento cruzado ou ama-de-leite, pode incentivar a mãe a trabalhar em conjunto com um profissional de saúde que esteja familiarizado com a triagem e rastreio de dadoras de leite, de modo a assegurar-se da saúde física da dadora.

É importante realçar que as normas afirmam que:

Uma Monitora nunca deve utilizar a sua posição enquanto Monitora da LLL para organizar qualquer tipo de rede de partilha de leite.

Embora as Monitoras devam fornecer informação e suporte sobre a partilha informal de leite, nunca se devem envolver no estabelecimento de contacto de uma mãe disposta a doar leite com outra mãe que o procura. Esta afirmação estabelece os limites que uma Monitora nunca deve ultrapassar.

Como Monitoras, o seguro de responsabilidade da LLLI cobre o nosso serviço voluntário, mas apenas se o efectuarmos de acordo com as políticas e directrizes da LLLI. No que diz respeito à partilha informal de leite, o nosso papel é o de facultar informação e apoio. Se facilitarmos acordos informais de doação de leite, ou se actuarmos como intermediárias, podemos não estar cobertas pelo seguro de responsabilidade da LLLI, uma vez que estas práticas não estão em conformidade com as políticas e directrizes da LLLI. Por exemplo, se uma mãe partilhar o seu leite numa reunião (ou no local da reunião, antes ou depois desta ter lugar) e isso causar dano para a criança, é possível que a Monitora seja chamada a responder a qualquer acção judicial resultante dessa situação. Neste tipo de caso, é pouco provável que os advogados e companhia de seguros da LLLI se responsabilizem pela defesa da Monitora. As Monitoras são encorajadas a considerar este tipo de situações sob uma perspectiva de gestão de risco, antes de tomarem uma decisão. O seu Professional Liaison Department local também está disponível para ajudar nestas situações.

CONCLUSÃO

Ao trabalhar com as mães, lembre-se de se concentrar em prestar apoio à mãe e à sua relação com a amamentação. Lembre-se também que o nosso objectivo é oferecer informação e opções, e não conselhos ou recomendações.  Ao dar a conhecer múltiplas perspectivas sobre o assunto, dá-se aos pais o poder de desenvolver as suas próprias conclusões e de tomar as melhores decisões para a sua família. As Monitoras têm uma oportunidade única de apoiar as mães numa variedade de problemas. Podemos ajudar as mães a identificar desafios e desenvolver planos criativos para os evitar ou superar.

[i] WHO, UNICEF. Geneva: WHO; 2003. Global Strategy for Infant and Young Child Feeding.

[ii] O Professional Liaison Department serve de recurso para as Monitoras que estão a trabalhar com as mães. É importante lembrar-se de contactar pessoalmente o PL Department e posteriormente fornecer a informação obtida à mãe. Este procedimento permite à mãe manter o contacto consigo, a sua Monitora Local, e a si ganhar conhecimento e competências.

[iii] National Institute for Health and Care Excellence

[iv] Que não exibem sintomas de doença.

Traduzido por

Ana Couceiro

revisto por

Isabel Martins Loureiro, Monitora LLL Portugal
Traduzido segundo as regras anteriores ao Acordo Ortográfico.

1 de Julho de 2015. Texto original https://www.llli.org/milk-sharing-age-social-media-2/